Árvore cultivada para produzir papel protege matas nativas
CRISTINA CHARÃO e GIOVANA GIRARDI
Você já pensou quantos
hectares de florestas nativas foram derrubados para produzir o papel da revista
GALILEU? Muitas pessoas responderiam que foram milhares. Mas a resposta correta
é: praticamente nenhum. Há pelo menos 50 anos a melhor forma
de obter celulose é com florestas plantadas para essa finalidade. Assim,
evita-se que florestas nativas, como a Amazônica e os remanescentes
de Mata Atlântica, sejam usadas para produzir papel e também
móveis, lenha, carvão vegetal e chapas de madeira. Hoje, além
de uma pequena quantidade feita de reciclagem, a maior parte da produção
de papel e celulose vem de áreas reflorestadas.
Árvores plantadas servem de matéria-prima para indústrias
de papel, carvão e compensados
Não é só a indústria de papel e celulose que está
substituindo outros tipos de madeira por eucalipto e pinus - espécies
normalmente utilizadas no reflorestamento. Ou- tras empresas, como as que
utilizam fornos com carvão vegetal, fabricam de chapas de fibra, compensados
e móveis aderiram à idéia.
A preocupação com a preservação das florestas
remanescentes tem se tornado cada vez mais importante. Um recente estudo,
realizado pelo programa Global Forest Watch da organização não-governamental
World Resources Institute (WRI) ao longo de quatro anos, previu: em 20 anos
sumirão do mapa mais de 40% dos remanescentes de florestas nativas,
que hoje já não passam de um quinto do que eram há um
século. Só no Brasil, aproximadamente 15% da Floresta Amazônica
já foi desmatado, de acordo com os últimos dados do governo.
Motivos para plantar as árvores que se pretende cortar não faltam.
Além de manter florestas nativas em pé, também se evita
toda a estrutura que precisa ser criada para que se retire um único
tronco de dentro da mata. Estradas, por exemplo. Além de provocarem
uma enorme devastação, elas abrem caminho para a ocupação
humana e, com isso, mais destruição. Hoje, pode-se diminuir
o impacto dessa extração usando, por exemplo, satélites
para encontrar as árvores que interessam no meio da floresta. Mesmo
assim o plantio se mostra ecologicamente mais correto porque, além
de prevenir problemas, cobre com vegetação áreas degradadas.
Usos do eucalipto
Fonte: 'A Cultura do Eucalipto no Brasil' (ano 2000)
• Papel
e celulose
Em média, 1 hectare de plantação de eucalipto possui
cerca de 1.500 árvores e estas produzem, aos 7 anos de idade, por volta
de 200 m3 de madeira sem casca. Com 4 m3 de madeira de eucalipto é
possível obter 1 tonelada de celulose. Para produzir 1 tonelada de
papel é utilizada 0,92 tonelada de celulose, acrescida de produtos
como amido, caulim, cola e tinta, que dão melhor acabamento ao produto
final. O segmento de celulose e papel possui 1,47 milhão de hectares
plantados, dos quais 980 mil correspondem a plantações de eucalipto.
• Lenha
e carvão vegetal
O carvão é obtido através de um processo de queima da
madeira, em fornos de alvenaria, geralmente construídos nas proximidades
da fonte da matéria-prima. No início da indústria siderúrgica
em Minas Gerais, onde ocorre o maior consumo de carvão do país,
as árvores usadas saíam das matas nativas. Hoje quase todo o
carvão consumido parte das florestas plantadas para esse fim. A madeira
de eucalipto tem sido amplamente utilizada para a produção de
lenha e carvão vegetal em razão de características como
altos poder calorífico, rendimento no processo industrial e densidade,
substituindo o uso de madeira das florestas nativas.
• Madeira
sólida
O segmento engloba madeira serrada, madeira processada para a produção
de compensados, aglomerados, lâminas de madeira e chapas de fibra. Essas
chapas e painéis são formados por madeira reconstituída
(à base de fibras ou partículas) pela colagem de pequenas peças
ou lâminas, os chamados painéis compensados. No mercado de chapas
duras, o Brasil é o líder mundial, usando o eucalipto como matéria-prima.
Em 1999 a produção foi de 536 mil m3, baseada exclusivamente
em eucalipto.
Previsões alarmantes sobre
as matas nativas faz o reflorestamento ser considerado uma prioridade internacional
Outro ponto positivo é a velocidade do ciclo de vida dessas plantas.
Enquanto o do eucalipto é de 7 a 10 anos, outras árvores usadas
na Europa, por exemplo, para a fabricação de papel e celulose,
têm um ciclo 10 vezes maior.
Somente as vantagens ecológicas, no entanto, não foram suficientes
para convencer os empresários do setor madeireiro, carvoeiro e de celulose
e papel a tempo de evitar que tantos mognos amazônicos ou pinheiros
da Sibéria tombassem. Foi preciso que a ciência provasse que
florestas cultivadas também são viáveis economicamente
e são capazes de produzir outro tipo de folhas verdes: dinheiro.
‘As florestas plantadas
concentram matéria-prima homogênea e ordenada. Na natureza, uma
árvore boa para corte está sempre muito distante da outra, além
de as espécies serem muito diferentes, nem sempre servindo para o mesmo
fim’, diz Marcio Nahuz, da Divisão de Produtos Florestais do
Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT).
Usando ainda o exemplo da estrada, a empresa que planta uma floresta normalmente
o faz perto das indústrias, economizando os gastos com o transporte
da colheita. 'Tem-se uma produtividade melhor e da espécie apropriada',
afirma Nahuz.
Produtividade é um argumento forte para os empresários. Em todo
o mundo, apesar de as florestas plantadas ocuparem apenas 3% da área
florestal total (o equivalente a 103 milhões de hectares), elas fornecem
22% da madeira consumida para fins industriais. Entretanto, esse resultado
ainda não é suficiente: esses números precisam crescer
para poder atender à demanda e evitar um desmatamento ainda maior nas
florestas nativas.
Aclimatadas em regiões tropicais, árvores têm crescimento
mais rápido que nos países de origem
Segundo a Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), entidade que congrega
empresas que cultivam áreas de reflorestamento, um terço dos
300 milhões de metros cúbicos de madeira consumidos por ano
no Brasil vem de florestas plantadas. Estas ocupam 4,8 milhões de hectares,
o equivalente a menos de 0,6% do território. A maior parte é
voltada para o setor de papel e celulose, que sozinho responde por 1,4 milhão
de hectares das florestas plantadas no país.
O Estado com maior participação no país é Minas
Gerais, com 1.678.700 hectares de áreas reflorestadas. Em seguida vem
São Paulo, com 770 mil hectares, segundo inventário do Instituto
Florestal desse Estado. Segundo o presidente da SBS, Nelson Barboza Leite,
para atender às necessidades da indústria de base florestal,
o percentual no Estado de São Paulo deveria subir para pelo menos 5%
e em todo o Brasil, dobrar. 'Isso daria condições para que o
crescimento da indústria seja sustentável', disse.
Os avanços brasileiros na silvicultura (cultivo de florestas) são
notáveis. Graças ao solo e clima favoráveis, a diferentes
árvores e à inventividade dos pesquisadores -, que criaram diferentes
métodos de cultivo e melhoraram geneticamente as espécies cultivada
- a produtividade das florestas cultivadas no Brasil supera a média
mundial.
Enquanto em outros países considera-se um bom resultado colher 25 metros
cúbicos por hectare, por aqui consegue-se até 45 metros cúbicos
em ciclos de corte bastante curtos (de 7 a 10 anos). Melhores resultados fazem
crescer o interesse do empresariado no plantio, diminuindo a pressão
sobre áreas nativas. Segundo cálculos do WRI, se a média
da produtividade mundial aumentar em 10 metros cúbicos por hectare,
com apenas 4% da área florestal do mundo pode-se atender a toda a demanda
por madeira.
Clima global
Além de baratear a produção, evitar o desmatamento e
preencher campos já devastados, as áreas reflorestadas também
colaboram para minimizar o aquecimento glo-bal. Isso porque as florestas cultivadas
são mais eficientes que as árvores adultas no seqüestro
de carbono da atmosfera - retiram do ar mais gás carbônico (CO2),
o principal responsável pelo efeito estufa.
Como estão em permanente crescimento, as árvores plantadas consomem
mais carbono que as florestas que chegaram ao clímax, onde há
um equilíbrio entre a quantidade de CO2 consumido durante a fotossíntese
para fabricar glicose e o liberado pela respiração. Além
do carbono usado para se alimentar, elas fixam a substância na forma
de matéria seca (madeira).
Por todas essas razões, as florestas plantadas funcionam como agentes
de equilíbrio do clima e vários países que abrigam essas
plantações querem revisar suas metas de redução
de gases estufa por já terem esses ralos de CO2.
São Paulo faz inventário completo
A Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, em parceria com o Instituto Florestal, lançou um inventário inédito no país sobre as áreas reflorestadas do Estado. O estudo foi feito com base em fotos, imagens de satélite de 1999 e 2000, e levantamentos nas propriedades. Os dados apontam que 3,1% do território do Estado são de áreas reflorestadas - cerca de 770 mil hectares, sendo 611 mil de eucalipto e 158 mil de pinus -, o que representa uma queda de 4,3% em relação ao primeiro estudo do gênero, publicado em 93, quando haviam 804.598 hectares de florestas plantadas. De acordo com Francisco Kronka, coordenador do projeto, houve diminuição de cerca de 20% nas plantações de pinus. Uma das explicações seria que essa mão-de-obra é muito barata, não interessando aos agricultores. Em contrapartida, a exportação brasileira de móveis feitos com eucalipto e pinus cresceu mais de 10 vezes, saltando de US$ 40 milhões em 90 para US$ 500 milhões em 2000. Kronka acredita que em breve vai começar a faltar pinus para abastecer essa indústria.